Saulo Queiroz: Um símbolo da arte e cultura campinense

Foto: Arquivo do programa Diversidade
Foto: Arquivo do programa Diversidade

Saulo Queiroz de Araújo, ou simplesmente Saulo Queiroz, é uma referência do jornalismo cultural dentro de Campina Grande e hoje além de jornalista, é também autor e diretor teatral. Possivelmente você já tenha visto ele na TV, ele é apresentador do programa Diversidade da Tv Itararé, afiliada da TV Cultura em Campina Grande. Nada mais justo do que falar de cultura, com quem de fato vive a Cultura. Conversamos sobre a Lei Rouanet, se ele é a favor ou não da vaquejada, quais são as reais dificuldades em fazer o jornalismo cultural aqui em Campina Grande e muito mais.

Com 47 anos de idade, o sagitariano é formado em jornalismo e também se especializou na área do jornalismo cultural. O profissional iniciou a sua carreira no rádio, onde foi produtor executivo e programador da Campina FM e Correio Fm, além de passar pelo jornal Correio da Paraíba em Campina Grande e pelo jornal independente A Palavra. Hoje ele possui um currículo vasto na área cultural, como produtor, autor, diretor teatral, apresentador, diretor do Teatro municipal Severino Cabral e criador de conteúdo de programas como Diversidade, Itararé Especial, Seis e Meia TV, Poesia e Filosofia, Dom e entre outros.

O campinense que tem a frase “O tempo é agora” como inspiração, sempre foi um grande amante da arte e percebia uma grande carência do jornalismo cultural nos meios de comunicação campinense e relatou “sentia muita falta de programas e suplementos que cobrissem o segmento, que noticiassem de maneira mais ampla o que era produzido principalmente aqui, em Campina Grande. Havia poucos espaços como a Revisa Cultura da Semana com Rômulo Azevedo ou os segundos cadernos do Jornal da Paraíba e Diário da Borborema – que eu não só lia como colecionada. Além, claro, de publicações como a Ilustrada de SP, a Bravo e a Cult, além de revistas mais específicas de cinema como a SET e musicais como a Bizz (que eu assinava e lia mais de uma vez).” Explicou.

Saulo Queiroz é um símbolo da preservação e respeito à arte e cultura local, sem dúvida alguma. Ele que sempre acompanhou o desenvolvimento cultural da cidade, e que já foi autor de peças teatrais que rodaram o país, é também um profissional fascinado pelo jornalismo cultural. E foi por esses meios que tomou conta da nossa conversa! Conversamos sobre o jornalismo cultural, o programa Diversidade, Lei Rouanet e também sobre os artistas do nosso Estado e que está fazendo sucesso por todo o Brasil. Confira:

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Atualmente você apresenta o programa Diversidade na TV Itararé, afiliada da TV Cultura na Paraíba. Pra mim, o programa é uma grande vitrine da cultura local e em 2017, o programa fará 10 anos de muita cultura e tradição. Nós sabemos que, infelizmente, o espaço da cultura nas mídias de comunicação ainda é muito limitado, por isso queria saber qual é o segredo do programa Diversidade se manter por 10 anos e trazendo cada vez mais a cultura local?

“Quando eu tive a ideia de criar o Diversidade muita gente achou que seria difícil manter um programa de jornalismo cultural diário numa TV aberta da cidade. Eu discordei e apostei no formato e conteúdo sem receio algum. Eu já desconfiava que um programa desse tipo chegaria num ponto em que seria insuficiente para a demanda enorme de fatos culturais que poderíamos cobrir. E chegou. Hoje nós fazemos reuniões de pauta e ficamos surpresos com a quantidade de opções para cobrir. É bem complicado porque o programa tem apenas meia hora diária e a cidade ferve de produção cultural.”

O jornalismo cultural em Campina Grande vem aos poucos conquistando o seu espaço, mas eu acredito que um grande marco para o campinense foi com a chegada da TV Itararé. Como você avalia o jornalismo cultural nesses últimos anos aqui na cidade?

“Devido a chegada de uma TV pública como a Itararé, de fato passamos a criar novos paradigmas para a criação de conteúdo jornalístico cultural. Depois da Itararé, houve um cuidado maior das emissoras de TV em abrir espaço para a cultura de maneira mais generosa, coisa que antes era muito difícil. Passaram a ver que era possível criar um conteúdo cultural mais amplo e conquistar faixar diferentes de audiência. Hoje, com a internet, está bem mais fácil obter informações desse segmento, mas as emissoras de TV e rádio ainda tem uma dívida com a produção cultural local. Ainda não entenderam a importância que elas têm na formação da cidadania, oferecendo opções de qualidade em termos de jornalismo e programação musical.

saulo_queiroz_mult
Foto: Pollyane Mendes

Analisando em nível mundial, nós sabemos que são as grandes mídias que decidem o que vamos ver e ouvir. São eles que dominam a indústria do entretenimento e da informação. Como podemos “driblar” esse tipo de manipulação cultural? A internet poderia contribuir para isso?

“O caminho já é sem volta: internet. Com ela não nos amarramos mais ao que as majors ditam. Os castelos que o establishment construiu aos poucos estão ruindo porque principalmente os jovens não aceitam mais o imposto, o ditado; e como são abertos a novidades, saem à cata na web e ignoram o que é imposto. Isso fortalece a cultura e abre fronteiras antes dificílimas de se romper.”

Um questionamento que está tomando conta dos brasileiros nos últimos meses, é sobre a legalidade ou não da vaqueja. Você como um grande entendedor e jornalista cultural de Campina Grande, se posiciona contra ou a favor da vaquejada? E por quê?

“Minha posição particular é baseada na ética, mas também passa pela consideração ao aspecto cultural. Primeiro, acho que aos poucos, mesmos a passos lentos, estamos tomando consciência de que, enquanto espécie, não temos o direito de lidar com as outras espécies como temos lidado. Já é demais ter que matar animais para comer e além disso usá-los para diversão, torturando ou provocando maltrato, é demais. Entretanto, também precisamos entender a cultura como algo que constrói a identidade de um povo e não pode ser destruída de uma lapada só. Acho que a vaquejada deve evoluir, passar por uma repaginação, uma reforma na sua forma de acontecer sem provocar tanto sofrimento aos animais envolvidos. Se isso é possível eu não sei. Só sei que é um dilema ético-cultural que extrapola questões individuais ou de grupos elitizados que se divertem às custas de touradas, vaquejadas, rinhas e brigas de bichos. Quer um exemplo prático de que isso é possível? O circo. Até pouco tempo animais em circos era imprescindível; hoje, as atrações na maioria deles são humanas e atingem um nível de excelência artística até melhor e maior, como é o caso do Cirque du Soleil.”

Você que é ator, autor, produtor, jornalista cultural, apresentador e diretor de vários trabalhos culturais, como você enxerga a Lei Rouanet? Na sua visão, é de fato uma lei que incentiva a cultura e a arte brasileira?

“Ruim com ela, pior sem ela. É como a bolsa-família. Outro dia uma colega jornalista alemã (que encontra-se em Campina Grande realizando uma pesquisa sobre o tema) ficou chocada com uma declaração que ouviu de um brasileiro. A pessoa afirmou que o bolsa-família deveria acabar porque o país era repleto de corruptos. Como assim? A lógica está invertida. Deve-se acabar a corrupção e não o benefício que muda a realidade de tantas famílias. O mesmo se aplica a Lei Rouanet. Estava ruim? Melhores. Havia desvios ou corrupção? Fiscalizem e punam. Agora, acabar mecanismos de apoio à cultura não me parece um caminho sensato.”

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Observamos que atualmente vários artistas paraibanos estão ganhando seu espaço nacionalmente, como Lucy Alves e o Lucas Veloso. Você acredita que falta o que exatamente para que mais artistas paraibanos sejam reconhecidos nacionalmente? Seriam mais incentivos financeiros? Mais oportunidades de mostrarem os seus talentos nas grandes mídias?

Em se tratando de carreiras individuais, só existe um caminho alicerçado em três pedras fundamentais: talento, vontade e foco. Não se iluda pois ninguém sem esse trio de requisitos chega a lugar nenhum. Lucy Alves, Lucas Veloso e Luci Pereira são exemplos disso. Conheço os três pessoalmente e afirmo sem medo de errar: não precisam e nem precisaram de apoio nenhum de governo ou de empresas. Apenas arregaçaram as mangas, tiveram talento e focaram no que queriam. O resultado vem de maneira inequívoca.”

Quais são as maiores dificuldades em fazer jornalismo cultural em Campina Grande?

“Hoje, pra mim, minha maior dificuldade é ter uma equipe reduzida. Gostaria muito de ter o triplo do pessoal que tenho trabalhando comigo. Além disso, também sinto falta de mais aperfeiçoamento na área. Mestrados, especializações, workshops, enfim, acesso a mais treinamento na área.”

Para fechar com uma análise de você mesmo, para você quem é a Saulo Queiroz?

“Eu sou um homem simples, curioso, que tenta respeitar as diferenças e agir de maneira ética em tudo que faço. Meu espírito é essencialmente artístico e ainda sou uma pessoa mística, apesar de em muitos momentos exercer o ceticismo com muita consciência pois sem ele a gente cai em inúmeras armadilhas. Ser cético não é desacreditar das coisas, mas questioná-las, tentar entende-las melhor e sem aquele véu que nubla o olhar. Estamos todos sujeitos a equívocos e com uma pitada de ceticismo, creio, evitamos alguns passos em falso.”

Deixe uma resposta