Hilreli “Chega” com um grito de existência, resistência e amor

E que bom que você existe, Hilreli. Em tempo de resistências “Chega” é forte, é social, é política, é abraço e conforto. A canção desbrava por vários caminhos, trazendo reflexões e encantamento pela voz suave que traz uma mensagem com tanta força. Hilreli, 33, é o responsável por “Chega” e que sem dúvidas, uma das músicas mais emocionantes produzidas nesses últimos anos. Para você entender melhor do que estou falando, aperte o play agora e assista o clipe de “Chega”:

Ela é emoção porque encosta na intimidade da sociedade, no respeito da tradição e no amor das famílias. Hil já viveu muita coisa para trazer “Chega” hoje para o mundo. A canção é o resultado de um amadurecimento de um grande artista, que além de cantar é também videomaker, fotógrafo, designer, produtor…Artista mesmo! O Capricorniano de Barbacena/MG é sentimento, coragem e representatividade. 

Hilreli Alves desde pequeno é apaixonado por todo tipo de arte e isso é nítido no resultado de “Chega”, que mostra várias facetas do Barbacenense. Nossa, quanta dedicação e minuciosidade! Logo abaixo vocês irão entender o quanto ele é dedicado e apaixonado pelo que faz. “Se você quer fazer do mundo um lugar melhor, comece pela figura no espelho” é essa a frase que mais define quem é Hil, o que a arte dele tem de diferente e o que “Chega” tem de melhor para o mundo. Nós conversamos com Hilreli, falamos sobre sua história na música, a nova canção, clipe, inspirações e muito mais. Leia agora a entrevista íntegra com fotos exclusivas:

Foto: Divulgação

Como aconteceu a sua história com a música? Teve alguma influência da família?

“ Eu sempre gostei de qualquer coisa relacionada às artes. A primeira a me tocar foi o desenho. Minha mãe conta que uma vez eu estava numa exposição e a puxei pela saia pra falar: ‘Mãe, eu quero fazer isso ai ó!’, com três anos. (risos) A música demorou a ganhar o espaço que deveria e poderia em função de outros projetos e muito também pela falta de acesso e oportunidade. O fato de ter crescido num bairro periférico da minha cidade me afastou da ideia de que aquele universo me fosse possível. Eu cresci ouvindo que ser artista é coisa de filho de rico. Foi necessário me desconstruir nesse pensamento pra me reconectar com essa vontade que sempre existiu desde que me entendo por gente, mesmo que não tive ninguém próximo na família que trabalhasse com música. Minha única referência de artista era minha irmã, que faz ballet, mas, dança é outra história. E, mesmo assim, levou 10 anos pra conseguir lançar esse primeiro e suado trabalho. Em 2019, completo 10 anos de carreira profissional. Nesse meio tempo fui participando de diversas iniciativas, projetos, e atuei em diversas funções também que me trouxeram muitas pessoas que foram essenciais pra fazer acontecer esse lançamento. Sem elas eu não teria a menor condição de estar fazendo o que estou fazendo. Música independente é resistência total!”

“Chega” é a abertura de um novo projeto, correto? Porque você escolheu essa canção para esse início e como foi a criação de toda a letra?

“A oportunidade de gravar a música surgiu a partir do projeto ‘Cinema na comunidade’, em que fui um dos produtores locais e participante da oficina. A música tinha tudo a ver com a história que estava sendo desenvolvida e com isso tornou-se uma prioridade preparar a gravação para que ela fosse trilha do curta ‘Anômalos’, lançado no final de 2018, gerado a partir da oficina. Eu digo que foi o universo conspirando me dizendo: “agora vai gravar tua música, homi” (risos) Por outro lado, não podia ter sido canção melhor. Ela foi composta em 2017, fruto do meu incômodo com o despontar de forças intolerantes na sociedade. Que infelizmente ainda temos muito pela frente até conseguir minimizar ou resolver essa questão. Acaba que ela ser lançada neste momento é sim um posicionamento político. Apesar de tudo, por mais que neste momento estejamos caminhando na direção de retrocessos a evolução é inevitável e nenhuma dessas discussões do nosso tempo farão sentido. Assim espero.”

Foto: Divulgação

A música também teve direito a videoclipe. Quais foram as maiores inspirações para a produção do clipe e da música?

“Videoclipes é um universo fascinante! Eu pirava com os lançamentos do Michael Jackson e Sandy e Junior. Mas é isso a gente se inspira e mira no clipe da Beyonce e do Childish Gambino e acerta onde for possível. (risos) Produzir audiovisual requer muito investimento, nós fizemos com uma equipe mega reduzida e cheia de afeto e disposição, daí o resultado fica muito lindo também! A ideia foi tentar trazer a força que a mensagem carrega mas ao mesmo tempo buscar leveza, principalmente pelo momento delicado em que estamos. Os ânimos ficam aflorados e as pessoas perdem a capacidade de ouvir, de contemplar.”

A letra da canção traz uma mensagem muito forte para o momento em que o Brasil está passando atualmente. Você acha importante que os artistas tenham posicionamentos diante das questões sociais?

“Eu respeito profundamente os artistas que não se sintam capazes ou que não se percebam necessários a colaborar numa construção coletiva especialmente no que diz respeito às questões sociais. Alguns, na verdade, eu até gostaria que ficassem quietos mesmo. (risos) Porém, não é assim que funcionam as coisas. Mas, é extremamente importante ter essa consciência e responsabilidade. Eu acho que nós temos esse poder de voz que, pra mim, pode e deve ser utilizado para jogar luz em temas delicados. É nesse lugar que vejo o meu trabalho. Arte é contemplação, encantamento, lazer, mas, é também incômodo, reflexão e posicionamento político. Não posso fechar os olhos ao contexto que me cerca e principalmente as fragilidades do meu semelhante. Tem gente morrendo nesse momento simplesmente por ser quem é. Isso não tá certo. Isso é muito cruel.”

Foto: Divulgação

Porque a escolha do Espaço Comum Luiz Estrela, em Belo Horizonte, para a gravação do clipe?

“A ideia surgiu através de uma sugestão do Kaike, eu não tinha dimensão de todo o contexto do lugar, só sabia que era uma ocupação artística. Eu conhecia a história do Luiz Estrela muito superficialmente, mais de ter acompanhado as notícias em 2013. Ele era um morador de rua, poeta, performer e ativista LGBTI+, que foi encontrado morto com indícios de espancamento em um dos maiores protestos de Belo Horizonte, durante as jornadas de junho de 2013. Estrela foi expulso de casa aos 15 anos por ser LGBT e assim ele foi parar nas ruas. Além disso, no prédio já funcionou um hospital militar e foi também um Hospital psiquiátrico infantil, na época em que o tratamento de saúde mental cometia crueldades. Barbacena tem uma história muito forte com relação a isso, algumas crianças inclusive saiam desse hospital em BH para vir para Barbacena. Então, tudo foi cercado de muitas coincidências que após terminar o clipe percebo que não foram coincidências. Era pra ter sido lá mesmo! Um espaço de resistência e ressignificação, transformado pela arte. Incrível!”

A música traz muito a ideia da resistência, de força e garra das minorias. Na letra de “Chega” tem dois trechos que fala “Apesar de você” que me remeteu imediatamente, a música do Chico Buarque que foi lançada na ditadura. Foi proposital esse entrelaçamento histórico?

“Foi intencional sim. Mas a referência foi mais poética do que ao momento político em si, só que é um contexto muito forte que acaba trazendo tudo. Cazuza já falava nos anos 80 em ver um museu de grandes novidades. Infelizmente, nada há de novo sob o sol. Nossa história é cíclica né. Então a gente vai revisitando o passado e tentando encontrar novas alternativas a velhas questões que já poderiam ter sido superadas.”

Foto: Divulgação

Já falamos das inspirações para criação da música “Chega”, mas quem são as inspirações para o artista Hilreli?

“Nossa, se fosse abrir tudo o que eu ouço seria quase uma caixa de pandora (risos) Eu tento buscar ouvir de tudo o que ta rolando. Sempre que possível paro pra ouvir trechos das 20 mais tocadas no spotify, assisto aos clipes em alta no youtube,… gosto de ficar ligado em tudo o que está rolando. Eu tento pelo menos. Mas tem sido mais influência e inspiração nesse momento Elza Soares, Silva, Rubel, Tim Bernardes, Karol Conká, Criolo, Luedji Luna, Dani Black,… ai socorro! Tem muita música boa rolando e eu não consigo citar poucos! Haha”

Pra você, o que é a música “Chega”?

“Chega é a porta que a gente abre pra poder expressar as aflições que nos oprimem, é sobre escolher não se conformar ou se acostumar com o silêncio e imposições externas. É um grito de reencontro comigo mesmo e meus pares. É uma potência aflorada de quem acredita incansavelmente na coexistência e respeito mútuo. Eles queriam a gente sem destaque, se achando pouco, aparecendo nada, descrente de si, mas, resistimos a tudo isso e a resposta vem com música, com poesia, com estética, com presença, com diálogo e voz.”

Foto: Divulgação

Sabemos que “Chega” acabou de ser lançada mas, já queremos saber: Tem outros lançamentos nos próximos meses?

“É um plano que neste ano possa me dedicar mais a música, dar continuidade ao ciclo iniciado por ‘Chega’. Já tenho algumas composições engatilhadas pra trazer, inclusive com participações pra lá de especiais que eu mal vejo a hora de poder estar lançando também. Apesar de tudo, a gente segue fazendo tudo aquilo que sempre acreditou e depositou esperança, é nessa toada que eu vou, é essa a minha decisão pessoal, tentar manter a minha sanidade mental em meio a tudo oferecendo arte e partir dela tentando trazer reflexões e reforço de identidade.”

Pra gente finalizar nossa entrevista, vamos imaginar a sociedade em um futuro próximo. Como você espera que o mundo esteja  daqui há 10 anos?

“Eu apenas desejo que essa fase em que a ignorância e a hipocrisia sejam referenciais tenha passado, que essa lógica pare de nos pautar, que tudo isso já tenha sido superado e tenhamos sido capazes de nos reinventar, que as sementes plantadas tenham florescido algum tipo de futuro melhor, mais inclusivo e acolhedor. A humanidade é maior que tudo isso. ‘Eles não vão vencer, nada há de ser em vão’.

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Glêbson Rodrigues